Uma mulher de trinta e poucos anos está deitada na cama e olha para o teto. Ela tem um olhar reflexivo e um pouco tenso, como se algo a estivesse preocupando. Tenta ler um texto xerocado que está aberto ao seu lado, com algumas linhas destacadas de lápis. Há três dias está parada na mesma página, ou melhor, in the same page, já que o texto é em inglês. De susto, sente o abdome contrair, a musculatura empurrar o bebê que está dentro dela para a base da barriga. Em seguida, vem uma pontada, uma leve cólica. Seus pensamentos começam a trazer todo o medo que vivenciou durante a primeira gravidez de volta. É impressionante como podemos nos sentir sozinhos em determinadas circunstâncias da vida. Agora é como se existisse apenas ela com seus pensamentos.
Isto bem que poderia ser um sonho. Ou o início de um romance de qualidade duvidosa. Também poderia ser a primeira cena de um filme, na qual o diretor apresenta sua personagem, expõe para o espectador suas características, seu contexto existencial. Mas não. É real. E a mulher deitada na cama sou eu, que me levanto em seguida para registrar, no computador, meus pensamentos. Para tentar transformá-los em algo capaz de traduzir, para vocês – “o outro”, o que está sendo este semestre para mim, no curso da vida.
Eu já estava grávida no início do semestre. Mas a gravidez era então ainda algo imaterial, quase imaginário, um fato do qual eu poderia até mesmo esquecer, momentaneamente, por pura distração. Durante a discussão de um assunto interessante em sala de aula. Ou em um almoço animado com os colegas, falando de congressos, artigos, planejando o futuro. Ou enquanto estava de férias do trabalho e tentava me conceder uma semana de descanso com a família, aproveitando para ler dois dos livros que há meses estavam me esperando: Mulheres, mães e médicos, de Maria Martha de Luna Freire, e as Visões do feminino, de Ana Paula Vosne Martins. Coincidência ou não, duas mulheres.
Naquele momento, pensava que meu primeiro texto de Portfolio trataria da doce ironia de poder vivenciar, durante o doutorado, a experiência prática que me levou, em alguma medida significativa, ao meu tema de pesquisa: discursos sobre amamentação e desmame. Cheguei a iniciar um texto com isso em mente. Brincando com aquela máxima de que a vida imita a arte, começaria meu relato dizendo que, por vezes, a tese é que imita a vida.
Mas agora o contexto é outro. E como poderia eu me esquecer, após as aulas de análise de discursos da Inesita, a importância dos contextos na produção dos textos e na sua apropriação. Então começo meu texto expondo, com ares de ficção, o meu contexto atual. “Era uma vez uma mulher de 33 anos, casada, um filho, jornalista, servidora pública, doutoranda e... grávida de cinco meses de uma menina que nem nasceu e já tem nome: Laura. Laurinha, a irmã do João.” E, embora esta qualidade tenha sido apresentada por último, é ela, neste momento, a minha principal definição.
É interessante como, também aqui, tese e vida se (con)fundem. Decidi fazer poucas disciplinas este semestre, entre elas uma que trata das concepções do risco em saúde, com a minha orientadora, Conceição, mais uma mulher nesse percurso. Ela já havia me indicado antes um artigo (Is Breast Really Best?, de Joan B. Wolf), que só consegui ler agora, por força da disciplina e do seminário que deverei apresentar. Um texto que problematiza as evidências científicas utilizadas pelas políticas públicas norte-americanas de promoção do aleitamento materno. Lá, o discurso para promover está calcado no risco do não fazer, do não amamentar. E eu que achava que, por aqui, as coisas estavam indo mal...
E, para me fazer entender sobre a “confusão”, explico: estou lendo sobre a sociedade de risco, tentando compreender como se manifesta essa eterna sensação de que somos responsáveis por reduzir ou aumentar a nossa exposição a situações perigosas para a saúde, e vivo, ao mesmo tempo, mais uma gravidez de risco. Com o meu marido o tempo todo me dizendo, nas poucas ocasiões em que saio de casa para ir ao médico ou fazer algum exame: “Vê se não vai aproveitar pra ficar batendo perna por aí...” Será que ele acha que eu sou alguma criatura irresponsável que colocaria em risco a vida da própria filha apenas para desfrutar de um momento de liberdade, ainda que ilusória? Como afirma Wolf, autora do tal artigo que acabo de ler, enquanto a mulher tem desejos, o bebê tem necessidades...
E, desde antes do nascimento, ser mãe, em nossa sociedade, é ser responsável pelo bem estar de nossos filhos. Curvar-se a essas necessidades. Você fuma (ou já fumou)? Você bebe? Usa alguma droga? E tome vitaminas, ultrassonografias, exames de glicose – para ver se você não está se permitindo chocolate demais – e alguém sempre lembrando que você deve beber de três a quatro litros de água por dia. Citando Wolf mais uma vez, por trás desses discursos da “maternidade total”, está a ideologia de que a mãe é capaz de proteger seus filhos de qualquer risco concebível. Qualquer um.
Ah, e que mulher pode esquecer-se de usar o creme contra estrias duas vezes ao dia? Afinal, dois meses após o parto você já deve poder vestir biquíni. Aos seis, se amamentar seu bebê exclusivamente ao seio, sob livre demanda, e ainda tiver tempo, disposição e disciplina para correr e fazer abdominais nas horas vagas estará, certamente, com o corpo da Galisteu.
Mas não vim aqui para me queixar. Aliás, não mesmo. Porque ilustrar essa peculiar condição de ser mãe nos dias de hoje não deve parecer uma queixa, nem mesmo uma justificativa para qualquer falha. É, antes de qualquer coisa – e por mais difícil que seja -, uma opção minha. E as opções que fazemos nem sempre são 100% tranqüilas em 100% do tempo. Aliás, na maioria das vezes, pelo menos comigo, não são. Envolvem sempre alguma dose de angústia e um pouco também daquela tristeza que, segundo Vinícius de Moraes, é necessária para fazer um samba com beleza e encher a vida de verdade. Sem elas, talvez nunca entendêssemos que, no fim das contas, é melhor ser alegre que ser triste. É um pouco como aquela máxima também de Vinícius que cresci ouvindo o meu pai repetir, a cada vez que aprontávamos alguma. “Filhos? Melhor não tê-los. Mas se não os temos como sabê-lo?”. Só que ao contrário. Meu pai é um canceriano apaixonado pelos filhos que só parou em três porque a minha mãe deu um ultimato.
Enfim, com a desculpa de que é preciso ter para saber, a humanidade continua a apostar nessa coisa louca, nessa coisa linda que os filhos são. E eu também.
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