segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Portfolio II - 2ª apresentação, 8 de dezembro de 2011

Querido diário,
(22/11) Inicio, a mais de duas semanas da minha última apresentação na disciplina Portfolio II, um balanço em etapas desse segundo semestre de curso. Neste momento, pensei que fosse possível estar com a Laurinha em meus braços. Mas, felizmente, ainda não. Ela aguarda dentro de mim, demonstrando ter a paciência que não puxou à mãe, e no sábado completo 32 semanas de gestação.

Desde a primeira apresentação, há dois meses, terminei de ler o livro da Elisabeth Badinter, O Conflito – a mulher e a mãe, uma leitura muito importante para delinear o contexto do meu projeto e ir, aos poucos, me apropriando do processo pelo qual a maternidade foi se transformando nas sociedades ocidentais e as mudanças fundamentais ocorridas nas últimas décadas. Também tomei coragem e submeti um resumo, relativo ao artigo que escrevi para a disciplina Seminários Interdisciplinares I no primeiro semestre, ao congresso da Alaic, que acontecerá em Montevidéu no ano que vem. Se tudo der certo – ou seja, se o resumo for aceito -, terei de ir de mala e cuia, com paper debaixo do braço, duas crianças a tiracolo e a minha mãe para ajudar, claro! Trocando em miúdos: (mais) uma legítima aventura.

Recentemente, comprei um livro na Estante Virtual de um pesquisador da Fiocruz, Gilberto Hochman, A Era do Saneamento. O autor foi uma indicação da minha orientadora, que achou fundamental eu diversificar as referências sobre o surgimento da saúde pública no Brasil. Pelo que vi, trata muito da questão da doença e da constituição desse campo no país, mas ainda não descobri, num primeiro olhar, nada específico sobre a minha área de interesse. Também reuni diversos artigos que têm relação com o meu tema, a questão da mulher e da infância no país, muitos deles descobertos na bibliografia dos livros que tenho lido, especialmente o da Maria Martha de Luna Freire, Mulheres, mães e médicos: discurso maternalista no Brasil, que é uma obra muito interessante e analisa como se constituiu o discurso maternalista, no início do século XX, a partir da leitura de duas publicações femininas da época: Vida Doméstica e Revista Feminina, voltadas às famílias burguesas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Muito curioso foi perceber, fuçando as referências bibliográficas do livro, quantos autores do campo da Educação ela consultou, em razão de a educação feminina ter estado diretamente relacionada à concretização dos ideais higienistas no país. O mundo dá voltas e, algumas vezes, a gente volta – diferente, claro – às mesmas referências, aos mesmos lugares. Saúde e educação, quem diria. Cá estou eu, novamente, redescobrindo meus professores do mestrado na Uerj e seus pares.
(29/11) Falta pouco mais de uma semana para a minha apresentação. Estou com várias ideias de artigos povoando a minha cabeça, mas elas disputam não somente espaço, mas, sobretudo, atenção com os mil e um questionamentos sobre quando e como vai ser o parto da Laura, se ela vai nascer bem, se poderá vir para casa com a gente ou precisará de cuidados especiais, como o João. A barriga está cada vez maior e mais pesada (e eu também). Uma “singela” consequência disso é que dormir se tornou uma missão quase impossível. Ainda bem que, como nas palavras do meu filhote: “Nada é impossível, mamãe”. Falta concentração, e aproveito esse tempo para reunir, reunir... Só ontem, chegaram dois livros que comprei pela internet: Mãe Natureza: Uma visão feminina da evolução – Maternidade, filhos e seleção natural, da primatologista norte-americana Sarah Blaffer Hrdy, e História das Mulheres no Brasil, coletânea organizada por Mary Del Priore. A ideia é a mesma: aproveitar esse tempo para reunir referências, agregar leituras possivelmente interligadas. E o negócio é inversamente proporcional: minha bibliografia cresce enquanto meu armário parece diminuir... 

(5/12) Estamos a três dias do Portfolio II, encerrando o semestre, o segundo do longo caminho do meu doutorado. A sensação que resume este último encontro é: 2011 voou. E, ao mesmo tempo, apesar de ter passado mais rápido do que todos os anos da minha vida, foi repleto de acontecimentos, e não meros acontecimentos, mas intensas transformações em seus quase 365 dias. Os livros que encontrei têm me livrado de fazer desses três meses de repouso um tempo perdido. Sei que perdi muito – as aulas, os encontros, a oficina de artigos... Mas, por outro lado, talvez não tivesse conseguido avançar tanto nas leituras relacionadas ao projeto. Talvez estivesse mais longe dele. Ao contrário, sinto-me totalmente conectada aos autores – sobretudo autoras – que tenho conhecido. Meu medo agora (que a minha orientadora não me ouça!) é ser tachada de ‘feminista’ por trabalhar com esse tema. Sempre fugi dos rótulos, sempre tive horror a esses ‘ismos’ e ‘istas’. Mas, no fundo, sei que preciso me aprofundar na condição da mulher, sua trajetória ao longo da história, as relações de gênero no Brasil e no mundo envolvendo a questão da maternidade e do aleitamento. E não posso nem quero me esquivar dessa tarefa.
Meu amigo, espero que me desculpe por este texto, essa colcha de retalhos mal costurada, esse alinhavo de apresentação. Confesso que, neste momento, sou uma mulher dividida entre minhas obrigações de aluna, os interesses de pesquisadora e minha ansiedade de mãe, que toma conta de quase tudo. A Laura vem aí... Está a caminho e, tenho certeza, vem completar a minha vida. Se possível, perdoe também a pieguice. Pelo menos dessa vez, vou me permitir colocar a “culpa” na minha situação. Ah, gravidez, esse estado especial...   
Queria fechar essas anotações com um trecho do livro de Sarah Blaffer Hrdy, que tem me ajudado a preencher esses últimos dias:
Hoje, as mães em países desenvolvidos, e com elas os pais e os filhos, penetram em terreno inexplorado. Sem ninguém que levante a mão oferecendo-se como voluntária, tornamo-nos cobaias num vasto experimento social que revela o que realmente querem fazer as mulheres que podem controlar a reprodução. As crianças também estão descobrindo o que significa ter nascido para uma complexa e multifacetada criatura que dispõe de uma gama de opções sem precedentes. É um experimento-em-curso, com dois resultados já evidentes. Primeiro, as decisões que as mães tomam nem sempre se harmonizam com as nossas expectativas convencionais acerca dessas criaturas inatamente carinhosas e altruístas. Em segundo lugar, seja o que for que a mãe de hoje decida, o mais provável é que seja uma decisão discutível em alguns setores. Em termos claros, a maternidade converteu-se num campo minado, e estamos caminhando através dele sem dispor ao menos de um mapa que nos guie. (HRDY, 2011, p.23-24)

sábado, 3 de dezembro de 2011

Visita PPGICS

Na tarde deste sábado, dia 3 de dezembro, eu e a Laura (ainda na barriga, bom que se diga) recebemos a visita de três colegas queridos do PPGICS: Marcus, Mari e Robalinho. A Yasmin e a Giovanna também apareceram, e a farra foi deliciosa.
Foi uma tarde de sábado diferente, pois geralmente as tenho passado sozinha, entre dormir, ler e ver filmes. E esperar que o final de semana passe rápido, outra semana comece e eu possa sair logo desse repouso compulsório. Adorei o carinho e agradeço aos amigos por terem vindo alegrar o nosso dia.
A macacada reunida

Para ver outras fotos, visite o blog: http://aestrelinhadelaura.blogspot.com/

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

beleza

sou uma noveleira assumida. e gosto, sobretudo, das novelas das seis, o horário das novelas de época e também das mais românticas. lembro muito bem quando, no remake de "cabocla", fiquei apaixonada pela música tema do casal protagonista: zuca e luís, "céu de santo amaro", cantada por flávio venturini e caetano veloso. a canção era de uma delicadeza incrível, e todos os dias eu esperava a hora da novela para ouvir um pouco daquela melodia inebriante. sabia que conhecia aquilo de algum lugar, mas a minha ignorância musical não me permitiria lembrar... até ontem, quando assisti novamente, depois de muitos anos, ao filme "hannah e suas irmãs", de woody allen. dei ao fernando, de presente de aniversário de casamento, uma caixa com 20 DVDs desse cineasta (que nós dois adoramos, mas que ele conhece muito mais do que eu), e ontem à tarde decidir rever esse filme maravilhoso. e qual não foi a minha surpresa ao ouvir a música que embala a paixão de michael caine e barbara hershey: o oboe concerto in D minor: second movement, de johann sebastian bach. a melodia da música "céu de santo amaro".
fiquei tão emocionada de ouvir aquela melodia novamente que procurei no google e encontrei um clipe da novela com a música no you tube:




quinta-feira, 17 de novembro de 2011

por uma formação humanística

pela primeira vez em muito tempo, como já disse no último post, estou podendo divagar, ir mais devagar, pensar em coisas não tão urgentes (apesar de ter de lidar com as urgentes também, como: quem vai pegar o joão na creche hoje? o que vai ter para o almoço? a rúcula já acabou? enfim, essas coisas do meu lado mãe e dona de casa).
por isso mesmo, para não simplesmente assassinar o tempo, mas torná-lo útil sem enfado, estou fazendo uma espécie de investimento em minha formação humanística. vendo filmes a que já assisti na faculdade - a long time ago - ou que, apesar de ter cursado comunicação, não tive a oportunidade de conhecer na época.
dica: a coleção cine europeu, da folha, traz 25 títulos incríveis, de diretores clássicos e alguns ainda contemporâneos. por enquanto, já disponibilizaram 16 DVDs. seguem os que vi/revi e aconselho:

  • último tango em paris (bertolucci) - vi pela terceira vez. maravilhoso
  • cinema paradiso (tornatore) - acho lindo, admito, eu adoro os italianos...
  • volver (almodóvar) - AMO. e quero ver o novo dele, mas, por enquanto, só nos cinemas
  • os girassóis da rússia (de sica) - vi pela primeira vez e é lindo. sophia loren e marcello mastroianni...
  • a liberdade é azul (kieslowski) - esse diretor é genial...
  • rocco e seus irmãos (visconti) - tb foi pela primeira vez e, apesar de looongo, é muito boa essa saga de uma família italiana...
  • os incompreendidos (truffaut) - já tinha visto com o fernando e revi agora. lindo.... truffaut, né...
  • lili marlene (fassbinder) - alemanha nazista, mas sem maniqueísmos... muito bom
pra quando tiverem tempo, quem sabe nas próximas férias do PPGICS??? ;)

agora, a pergunta que não quer calar: quando foi que esquecemos a importância da formação humanística para o caminhar da humanidade? para nos tornarmos, a cada dia, mais humanos, e não o contrário???

terça-feira, 11 de outubro de 2011

tudo ao mesmo tempo agora

chego a apostar que, em poucos momentos da minha vida, minha cabeça esteve tão cheia de pensamentos, ideias, desejos como agora. não sei se todos os pensamentos são úteis, se todas as ideias são boas, se todos os desejos são realizáveis. provavelmente, não. mas é uma sensação parecida com aquela de quando usamos alguma substância com potencial entorpecente e nos transformamos numa enorme superfície sensível a um número infinito de estímulos. aí, pensamos milhares de coisas ao mesmo tempo, e, muitas vezes, achamos que tivemos uma ideia simplesmente genial. eu sempre procurei anotar essas ideias em um caderninho ou mesmo num guardanapo de papel só para, no dia seguinte e passada a onda, saber se, de fato, aquela fantástica ideia valia a pena.
talvez a gravidez me coloque nessa situação especial de entorpecência por um longo tempo, tempo que se estende não só em comprimento, mas também em largura e profundidade, muito em razão do repouso. é tempo interior demais e vida lá fora de menos. e pensem no que representa isso para uma ariana rueira toda vida...
mas, por outro lado (porque tudo tem vários), eu estou podendo me perder em leituras não tão imediatas e urgentes. estou podendo divagar. ir mais devagar. e isso é raro.
no momento, estou lendo quatro livros, além das revistas de grávida que pego de vez em quando para não ficar pensando besteira (ou seria o contrário?!).
  • A PALAVRA AMEAÇADA, da poeta, ensaísta e linguista argentina Ivonne Bordelois;
  • LÍNGUA COMO PRÁTICA SOCIAL, do linguista-antropólogo William Hanks (indicação do professor Nilson Moraes);
  • HISTÓRIA DA SEXUALIDADE VOL. I - A VONTADE DE SABER, de Michel Foucault;
  • e O CONFLITO - A MÃE E A MULHER, da filósofa francesa Elisabeth Badinter, a mesma autora de Um amor conquistado - O mito do amor materno.
Enfim, o que posso dizer é que carrego Laura no ventre e a cabeça, prenhe de pensamentos...

Para fechar, uma música que não sai da minha cabeça: GRÁVIDA, com Marina Lima

 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

um coração


Clareana (Joyce)

Um coração
de mel de melão
de sim e de não
É feito um bichinho
no sol de manhã
novelo de lã
No ventre da mãe
bate um coração
De Clara, Ana
e quem mais chegar
Água, terra, fogo e ar



Na voz da compositora, a poesia fica completa.



terça-feira, 4 de outubro de 2011

Portfolio II - 1ª Apresentação (5/10/2011)

Vivendo, lendo, ouvindo, vendo e aprendendo

Uma mulher de trinta e poucos anos está deitada na cama e olha para o teto. Ela tem um olhar reflexivo e um pouco tenso, como se algo a estivesse preocupando. Tenta ler um texto xerocado que está aberto ao seu lado, com algumas linhas destacadas de lápis. Há três dias está parada na mesma página, ou melhor, in the same page, já que o texto é em inglês. De susto, sente o abdome contrair, a musculatura empurrar o bebê que está dentro dela para a base da barriga. Em seguida, vem uma pontada, uma leve cólica. Seus pensamentos começam a trazer todo o medo que vivenciou durante a primeira gravidez de volta. É impressionante como podemos nos sentir sozinhos em determinadas circunstâncias da vida. Agora é como se existisse apenas ela com seus pensamentos.
Isto bem que poderia ser um sonho. Ou o início de um romance de qualidade duvidosa. Também poderia ser a primeira cena de um filme, na qual o diretor apresenta sua personagem, expõe para o espectador suas características, seu contexto existencial. Mas não. É real. E a mulher deitada na cama sou eu, que me levanto em seguida para registrar, no computador, meus pensamentos. Para tentar transformá-los em algo capaz de traduzir, para vocês – “o outro”, o que está sendo este semestre para mim, no curso da vida.
Eu já estava grávida no início do semestre. Mas a gravidez era então ainda algo imaterial, quase imaginário, um fato do qual eu poderia até mesmo esquecer, momentaneamente, por pura distração. Durante a discussão de um assunto interessante em sala de aula. Ou em um almoço animado com os colegas, falando de congressos, artigos, planejando o futuro. Ou enquanto estava de férias do trabalho e tentava me conceder uma semana de descanso com a família, aproveitando para ler dois dos livros que há meses estavam me esperando: Mulheres, mães e médicos, de Maria Martha de Luna Freire, e as Visões do feminino, de Ana Paula Vosne Martins. Coincidência ou não, duas mulheres.
Naquele momento, pensava que meu primeiro texto de Portfolio trataria da doce ironia de poder vivenciar, durante o doutorado, a experiência prática que me levou, em alguma medida significativa, ao meu tema de pesquisa: discursos sobre amamentação e desmame. Cheguei a iniciar um texto com isso em mente. Brincando com aquela máxima de que a vida imita a arte, começaria meu relato dizendo que, por vezes, a tese é que imita a vida.
Mas agora o contexto é outro. E como poderia eu me esquecer, após as aulas de análise de discursos da Inesita, a importância dos contextos na produção dos textos e na sua apropriação. Então começo meu texto expondo, com ares de ficção, o meu contexto atual. “Era uma vez uma mulher de 33 anos, casada, um filho, jornalista, servidora pública, doutoranda e... grávida de cinco meses de uma menina que nem nasceu e já tem nome: Laura. Laurinha, a irmã do João.” E, embora esta qualidade tenha sido apresentada por último, é ela, neste momento, a minha principal definição.
É interessante como, também aqui, tese e vida se (con)fundem. Decidi fazer poucas disciplinas este semestre, entre elas uma que trata das concepções do risco em saúde, com a minha orientadora, Conceição, mais uma mulher nesse percurso. Ela já havia me indicado antes um artigo (Is Breast Really Best?, de Joan B. Wolf), que só consegui ler agora, por força da disciplina e do seminário que deverei apresentar. Um texto que problematiza as evidências científicas utilizadas pelas políticas públicas norte-americanas de promoção do aleitamento materno. Lá, o discurso para promover está calcado no risco do não fazer, do não amamentar. E eu que achava que, por aqui, as coisas estavam indo mal...
E, para me fazer entender sobre a “confusão”, explico: estou lendo sobre a sociedade de risco, tentando compreender como se manifesta essa eterna sensação de que somos responsáveis por reduzir ou aumentar a nossa exposição a situações perigosas para a saúde, e vivo, ao mesmo tempo, mais uma gravidez de risco. Com o meu marido o tempo todo me dizendo, nas poucas ocasiões em que saio de casa para ir ao médico ou fazer algum exame: “Vê se não vai aproveitar pra ficar batendo perna por aí...” Será que ele acha que eu sou alguma criatura irresponsável que colocaria em risco a vida da própria filha apenas para desfrutar de um momento de liberdade, ainda que ilusória? Como afirma Wolf, autora do tal artigo que acabo de ler, enquanto a mulher tem desejos, o bebê tem necessidades...
E, desde antes do nascimento, ser mãe, em nossa sociedade, é ser responsável pelo bem estar de nossos filhos. Curvar-se a essas necessidades. Você fuma (ou já fumou)? Você bebe? Usa alguma droga? E tome vitaminas, ultrassonografias, exames de glicose – para ver se você não está se permitindo chocolate demais – e alguém sempre lembrando que você deve beber de três a quatro litros de água por dia. Citando Wolf mais uma vez, por trás desses discursos da “maternidade total”, está a ideologia de que a mãe é capaz de proteger seus filhos de qualquer risco concebível. Qualquer um.
Ah, e que mulher pode esquecer-se de usar o creme contra estrias duas vezes ao dia? Afinal, dois meses após o parto você já deve poder vestir biquíni. Aos seis, se amamentar seu bebê exclusivamente ao seio, sob livre demanda, e ainda tiver tempo, disposição e disciplina para correr e fazer abdominais nas horas vagas estará, certamente, com o corpo da Galisteu.   
Mas não vim aqui para me queixar. Aliás, não mesmo. Porque ilustrar essa peculiar condição de ser mãe nos dias de hoje não deve parecer uma queixa, nem mesmo uma justificativa para qualquer falha. É, antes de qualquer coisa – e por mais difícil que seja -, uma opção minha. E as opções que fazemos nem sempre são 100% tranqüilas em 100% do tempo. Aliás, na maioria das vezes, pelo menos comigo, não são. Envolvem sempre alguma dose de angústia e um pouco também daquela tristeza que, segundo Vinícius de Moraes, é necessária para fazer um samba com beleza e encher a vida de verdade. Sem elas, talvez nunca entendêssemos que, no fim das contas, é melhor ser alegre que ser triste. É um pouco como aquela máxima também de Vinícius que cresci ouvindo o meu pai repetir, a cada vez que aprontávamos alguma. “Filhos? Melhor não tê-los. Mas se não os temos como sabê-lo?”. Só que ao contrário. Meu pai é um canceriano apaixonado pelos filhos que só parou em três porque a minha mãe deu um ultimato.
Enfim, com a desculpa de que é preciso ter para saber, a humanidade continua a apostar nessa coisa louca, nessa coisa linda que os filhos são. E eu também.  

Um domingo de praia

Em julho, antes do repouso começar, fomos curtir uma praia em família com os primos do João, que moram no Canadá. Muito sol, água de coco, biscoitos Globo e um mar pra lá de gelado... 

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

inspiração

Laura
(Letra: Braguinha Música: João De Barro - Aldir Pires Vermelho)

Um vale em flor, a fonte,
O rio cantando
O sol banhando a estrada,
Frases de amor

Laura,
Um sorriso de criança
Laura,
Nos cabelos uma flor
Ô Laura,
Como é linda a vida!
Ô Laura,
Como é grande o amor!

Depois o adeus, o lenço,
A estrada, a distância,
O asfalto, a noite, o bar,
As taças de dor

Laura,
Que é da rosa dos cabelos
Laura,
Que é do vale sempre em flor
Ô Laura,
Que é do teu sorriso
Ô Laura,
Que é do nosso amor


Quem quiser ouvir a música na interpretação de Emílio Santiago:




sexta-feira, 16 de setembro de 2011

as demandas dos outros

Putz! Fiz uma compra hoje pela Estante Virtual, crente que iria receber o livro em, no máximo, sete dias, mas acabo de me lembrar da greve dos Correios... Enfim, nesta vida temos de aprender a lidar com as demandas dos outros...

a redescoberta de um livro esquecido

Li alguma coisa sobre este livro quando estava escrevendo o projeto para tentar a seleção do doutorado. Acho que, na época, tentei encontrá-lo para comprar, mas não encontrei. Parece que é um clássico da pesquisadora Elizabeth Badinter sobre o tema da maternidade e sua existência como construção social. Bestamente, lendo uma revista de comportamento em um consultório médico, encontrei a citação de outro livro dela, e, subitamente, me lembrei deste, que está disponível para download no endereço http://www.fiocruz.br/redeblh/media/livrodigital%20%28pdf%29%20%28rev%29.pdf

Para quem se interessar, segue uma breve sinopse:

Será o amor materno um instinto, uma tendência feminina inata ou depende, em grande parte, de um comportamento social, variável de acordo com a época e os costumes? É essa a pergunta que Elisabeth Badinter procura responder neste livro, desenvolvendo para isso uma extensa pesquisa histórica, lúcida e desapaixonada, da qual resulta a convicção de que o instinto materno é um mito, não havendo uma conduta materna universal e necessária.

Ao contrário, a autora constata a extrema variabilidade desse sentimento, segundo a cultura, as ambições ou as frustrações da mãe. Não pode então fugir à conclusão de que o amor materno é apenas um sentimento humano como outro qualquer e como tal incerto, frágil e imperfeito. Pode existir ou não, pode aparecer e desaparecer, mostrar-se forte ou frágil, preferir um filho ou ser de todos. Contrariando a crença generalizada em nossos dias, ele não está profundamente inscrito na natureza feminina.


Vou começar a ler, claro.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

a little bit of poetry

Para pensar o discurso, a vida, a noite e, é claro, a poesia de Pessoa.


O universo não é uma ideia minha.
A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos,
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso. 


Fernando Pessoa

Portfolio I - Apresentação II - 29 de junho 2011


Uma terça qualquer

6:15 – Acordo ao som do despertador que o Fernando me deu de presente no último Dia dos Namorados, mas que ele insiste em sintonizar na CBN (e se eu odeio saber das notícias ao longo do dia, imaginem a minha felicidade ao despertar...)

Levanto
Ponho a água para o café
Como alguma fruta
Às vezes pão
Acordo o João – que não quer levantar porque foi dormir super tarde na noite anterior

Todo dia ela faz tudo sempre igual...

7:15 – Suborno o filho com Toddynho pra poder sair de casa
Prometo milk shake pra sentá-lo na cadeirinha do carro
Quarenta minutos entre a Tijuca e o Flamengo
Olha o túuuunel, mamãe!!!
Que túnel é este, filho?
Santa Bábara...

8:00 às 11:45 – Corro para tentar dar conta do trabalho e das exigências que só aumentam, aumentam, todos querem saber da Comunicação, todos precisam da Comunicação, todos metem o pau na Comunicação...

Todo dia, todo dia...

12:00 – Termino de engolir a comida em frente ao computador, escovo os dentes, esfrego a cara e me preparo para o 2º turno

12:15 – Passo na creche para pegar o João que deveria estar dormindo o sono pós-almoço com os coleguinhas
Ele sai sonolento trazido pela professora: Colo, mamãe, colo... A mamãe-cabide-espantalho carrega as mochilas e bolsas e marmitas e puxa o filho de lado, anda até o carro
Nesse horário, a corrida até a Tijuca é mais rápida. Em 25 minutos, ligo para a empregada, que desce até a rua, deixo o João em casa e olho para o relógio no celular: é quase uma

Roda mundo, roda gigante...

13:25 – Chego em Manguinhos, subo correndo, às vezes bebo uma água, às vezes aguardo até o intervalo
Quem leu? Quem não leu? O que tem pra ler para a semana que vem?
Agora sou aluna, penso, problematizo, participo, pergunto, pergunto
Sou uma questão? Minha síntese é uma interrogação?
Aproveito a sala de aula pra isso porque na vida tenho de ser prática
Não tenho tempo pra muita firula, não

16:45 – Fecho os livros e as sacolas, saio correndo, dou carona ao colega que ainda vai dar aula até às dez
Vamos falando de como é a vida de doutorando que trabalha
Os trabalhos, o trabalho, a família
Quero ansiosa chegar em casa pra retomar a minha função de mãe

Roda moinho, roda pião...

17:30 – Ponho a chave na porta, o João grita de lá: É a mamãe, a mamãe chegou!
Abro, entro, abraço, beijo – melhor hora do dia. Você brinca comigo? Tô um caco, mas eu brinco, e também me irrito com a pirraça de filho (que eu também não sou de ferro)
Vejo a tentativa de dar o jantar, que ele recusa, engulo alguma coisa, aproveito as últimas horas da empregada em casa para tentar estudar

19:00 – João entra no quarto, João sobe na cama, João quer atenção
(Mas não é isso que todo mundo quer?)
Desisto, sento ao lado do posto de gasolina, o brinquedo preferido que ele ganhou no aniversário de três anos
Brinco, babo, me surpreendo com a inteligência rara do garoto, que aprendeu a brincar sozinho

21:00 – Começo a tentar colocá-lo para dormir. Você lê pra mim? Uma, duas, três histórias. Conta de novo a dos três porquinhos...

(Alguém pergunta: e o marido? Sai às sete e só chega tarde, mas ajuda quando dá)

22:00 – Filho, tá na hora de dormir! Te amo, mamãe. Eu também amo você. Dormimos os dois. E ainda nem escovei os dentes, troquei de roupa, chequei a porta... E a certeza de que uma noite vai ser pouco... E pelo menos cinco livros me olhando todos os dias no escritório, que eu sei que preciso ler...Quem manda querer tudo, já dizia a minha avó.

O tempo rodou num instante nas voltas do meu coração...






sexta-feira, 24 de junho de 2011

sábado de trabalho voluntário...

e pouco estudo...

70 anos de história da saúde da criança e aleitamento materno

O Ministério da Saúde acaba de lançar, em 2011, o livro Gestões e gestores de políticas públicas de atenção à saúde da criança: 70 anos de história. Um prato cheio de informações sobre a área técnica do MS dedicada à saúde da criança e ao aleitamento materno. Muito boa notícia!

Confira aqui.

domingo, 12 de junho de 2011

Não lendo livros – parte III


Mulheres, mães e médicos: Discurso maternalista no Brasil – Maria Martha de Luna Freire. Com mestrado e doutorado pela Fiocruz, Maria Martha é professora do Instituto de Saúde da Comunidade da Universidade Federal Fluminense (UFF). Este livro eu, sinceramente, nem acredito que exista e que eu o encontrei... É maravilhoso demais para ser verdade uma obra, fruto da tese da autora, que trata da construção do DISCURSO maternalista no Brasil. Com certeza, será basal para a minha discussão sobre os sentidos propostos pelos materiais de orientação e campanhas em prol do aleitamento materno no país. Nem comecei a ler direito e achei totalmente por acaso, a partir de uma reunião de trabalho... Mistérios!!!

Não lendo livros – parte II


Outros livros que têm tudo a ver com o meu projeto (e para os quais olho de rabo de olho todos os dias, mas não posso pegar...):

1) A Medicalização do Corpo Feminino – Elisabeth Meloni Vieira. Trata do surgimento da ginecologia e da obstetrícia no Brasil e de seu crescente controle sobre o corpo da mulher. Li todo para elaborar o meu projeto do doutorado – mas preciso ler outras vezes...

2) A mulher e a vida cotidiana: Amor, casamento e feminismo – Christopher Lasch. O autor é um historiador norte-americano famoso e acredito que esta leitura pode ser instrutiva para entender o pano de fundo dessas mudanças no papel da mulher na sociedade contemporânea. Só li a introdução quando GANHEI, numa distribuição gratuita de livros pela Prefeitura do Rio na Praça dos Cavalinhos, onde sempre passeio com o João. Dizem que os insights vêm de onde a gente menos espera... Olha aí!

Não lendo livros – parte I


Este são dois livros muito interessantes para o meu projeto – e que não tenho tido qualquer tempinho que seja para ler e desvendar:

1) Ordem Médica e Norma Familiar – Jurandir Freire Costa. Descobri ainda antes de prestar a seleção de doutorado, e ele entrou como citação no meu projeto. Trata do processo de entrada da medicina como elemento normatizador/de poder na sociedade burguesa brasileira, com início no final do século XIX e início do século XX;


2) Visões do Feminino: a medicina da mulher nos séculos XIX e XX - Ana Paula Vosne Martins. Eu acho que encontrei este livro por acaso na Editora Fiocruz. Ou não? Sei lá, provavelmente estava na bibliografia de algum outro texto que li, e tenho certeza de que será bem útil para a minha proposta de trabalho.

O primeiro Portfolio a gente nunca esquece...


Portfolio I - Apresentação I - 18 de maio 2011

Fragmentos de mim (incluindo o capítulo “Eu agora”)

Na especialização que fiz em Sociologia Urbana, dei a minha monografia o subtítulo de Uma reportagem. Na época, interpretei isso como sendo uma demonstração de insegurança, e ouvi da banca, durante a defesa, que eu deveria mesmo suprimir aquela rubrica, posto que se tratava de um texto acadêmico em sentido estrito, prescindindo da minha mea culpa.

Alguns anos depois, no mestrado, classifiquei minha dissertação como Notas sobre a construção de um currículo intercultural, como que, uma vez mais, situando meu trabalho no campo do efêmero, do quase noticioso, jornalístico.

Hoje, investindo no doutorado, tendo a achar que essa provisoriedade inerente à forma como me relaciono com o conhecimento fala de quem eu sou e fui-me constituindo até agora. Uma curiosa por muitas coisas, uma errante que se deixa encaminhar para onde os ventos do desejo levam.

Não me vejo, nem em mil anos, especialista em algum tema ou mesmo numa área específica. Não tenho em mim essa capacidade. Talvez por isso, nunca tenha pensado seriamente em ser professora. Professor é alguém que se torna mestre em alguma cátedra, que passa a ser a “sua cadeira”. E eu mal consigo ficar sentada nessas cadeiras de sala de aula por três horas seguidas. Quiçá anos, ou até uma vida...

Este doutorado representa para mim mais uma carteira de escola, que quero vivenciar – e estou vivenciando – com prazer o ocupar. Porque – e às vezes acho que sou pré-moderna, por isso não vivo essa dicotomia entre razão e sensibilidade – não sei dividir: existe o doutorado e existe a vida. “Ah, a vida que me desculpe, mas os próximos quatro anos estão reservados para a tese”. Pra mim, é tudo uma coisa só, que envolve – necessariamente, inexoravelmente, sempre – o desejo de estar ali (ou, no caso, AQUI). Então, espero, sinceramente, que o doutorado seja generoso comigo. Porque, da minha parte, posso dizer que estou compartilhando com ele tudo o que tenho, tudo o que sou. Como cantava Ney Matogrosso: “Sem tirar nem pôr”.


sexta-feira, 27 de maio de 2011

iniciação digital

"mamãe, mamãe: dabliu, dabliu, dabliu, ponto com, barra sítio do pica-pau amarelo".

desculpem os que já ouviram a anedota, é que a minha corujisse me impede de parar de repetir... ;)

terça-feira, 17 de maio de 2011

post pré-port

Aliterações à parte, esta mensagem é mesmo um post que antecede a minha primeira apresentação na disciplina Portfolio I. Com um mês de distância da última mensagem, preciso dizer o seguinte: vi, vim e venci (Hoje apresentei o livro "Filosofia, Linguagem e Comunicação" na disciplina de Teoria e Metodologia dos Discursos. Graças a Deus!!!)

Cansada e, sobretudo, aliviada, apresento-me ao Portfolio com ares de guerreira (e olhar de peixe morto).

"Eu vou até o fim", como já dizia (anti)heroicamente o maravilhoso Chico Buarque.



sexta-feira, 15 de abril de 2011

lendo (lendo, lendo, ...) livros


Estão aí dois livros que têm sido importantes neste momento:

1.      Lendo imagens, de Alberto Manguel: fora do tom acadêmico, mas surpreendente porque analisa imagens - de vários momentos da arte mundial, mas principalmente ocidental. Dentre elas, uma pintura atribuída a Robert Campin que apresenta a Virgem amamentando a criança;

2.      Filosofia, Linguagem e Comunicação, de Danilo Marcondes: livro que estou lendo para apresentar na disciplina Teoria e Metodologia dos Discursos. E que tenho de correr na leitura para preparar a apresentação até 10 de maio...

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Fichamento 2


MINAYO, Ma. Cecília de S. Contribuições da antropologia para pensar e fazer saúde. In: CAMPOS, Gastão W.S. ET AL. Tratado de Saúde Coletiva. 2ª ed. São Paulo: Ed. Hucitec, Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, p. 189-218.

Resumo
A autora busca abordar as contribuições que a entrada das reflexões da antropologia no campo da saúde trouxe para a área, sobretudo para pensar o binômio saúde-doença nos dias atuais. Ao longo do texto, segue um percurso que abarca desde o surgimento da antropologia, suas relações com as disciplinas científicas e seu diferencial como ciência (a compreensão da cultura como elemento fundador da experiência humana) até as contribuições da antropologia para o campo da saúde e as dificuldades e entraves que surgem na sua relação com essa área de conhecimento. Aborda, ainda, as características da antropologia da saúde made in brazil e suas diferenças fundamentais em relação ao trabalho desenvolvido internacionalmente.

Ideias principais

- Contribuição da antropologia para o concerto das disciplinas científicas: A antropologia surge no final do século XIX e marca seu lugar como disciplina tendo como objetivo investigar o modo como as sociedades humanas ou grupos humanos específicos produzem o mundo por meio de processos de significação e classificação. Além de se debruçar sobre a análise da(s) cultura(s), ela também empreende um processo de auto-reflexão, realizando “a crítica do próprio pensamento científico produzido por ela própria” (p.190). Sua grande contribuição para o campo da saúde se dá por meio de uma crítica ao pensamento científico duro, tradicional, que se constrói sobre o paradigma de que é mais verdadeiro e legítimo do que o que Lévi-Strauss chamou de pensamento mítico. Através de sua tradição de compreensão da cultura, que passa a ocupar um lugar de objetividade por onde passam o político, o religioso e outras instâncias da vida social, a antropologia traz para o campo da saúde:
1. A percepção de que a doença é um “híbrido biológico social”, expressão cunhada por Latour (1994), ou seja, uma condição/vivência que não é apenas biológica, orgânica, natural, mas está imbricada em sentidos sociais e culturais produzidos em cada grupo humano. E isto contribui para relativizar a visão biomédica sobre saúde e doença;
2. A descoberta de que, assim como saúde e doença são conceitos biológicos e sociais, também os mecanismos terapêuticos e de cura estão ligados a um funcionamento, ou, como apontou Lévi-Strauss (1963), dependem da “eficácia simbólica”, que, por sua vez, surge da relação de confiança estabelecida entre médico, paciente e ambiente cultural;
3. O entendimento da doença como “fato social total” (Mauss, 1950), acontecimento que mobiliza tanto o corpo quanto o emocional, uma mobilização de tal grandeza que termina por afetar as relações do indivíduo em comunidade. Essa concepção da saúde e da doença como representações biológicas fortemente ligadas à cultura é o que faz delas janelas para a compreensão das relações sociais e das instituições e seus mecanismos. É ainda esse entendimento que permite a Douglas (1970) afirmar que é o corpo social que limita a forma pelo qual o corpo físico é percebido em cada época e sociedade em particular;
4. A ênfase na contextualização dos fenômenos ou processos que envolvam ser humano, no âmbito individual ou em coletividade, lembrando que, no campo da saúde, a formação histórico-cultural de uma população e a configuração econômica, social e política interferem no quadro de saúde e na doença;  
5. A contribuição na abordagem metodológica, que agrega ao campo da saúde a importância de levar em consideração: os valores culturais, representações e opiniões sobre saúde-doença tanto os biomédicos como os chamados “tradicionais”, contra os quais a ciência se impôs para a constituição do campo; as relações entre profissionais da saúde, pacientes e seus familiares, as lógicas das próprias instituições de saúde e de movimentos sociais; e a avaliação de políticas e práticas de atenção em saúde em todas as suas etapas, desde a formulação até a aplicação técnica, considerando suas significações entre todos os sujeitos envolvidos. A ideia de ouvir antes de prescrever e a necessidade de interlocução (a reciprocidade intersubjetiva) entre os atores são parte do arcabouço antropológico aplicável à saúde.  

- Dificuldades na relação da antropologia com a saúde: Para a autora, os principais entraves entre a antropologia e a saúde encontram-se em ambos os campos. Do lado da saúde, as questões são 1) o retorno a uma concepção meramente biológica da saúde-doença que advém da ideologia que acompanhou o desenvolvimento da genética contemporânea, deixando de fora o aspecto social desse binômio (o reducionismo biomédico); e 2) o tecnicismo da clínica e da epidemiologia, que cria a ideia  de que a verdade é composta de números e dados, e que o sujeito histórico não compõe esse panorama. Do lado da antropologia, a tendência apontada anteriormente às avessas, ou seja, perceber o ser humano apenas como cultural. Minayo critica a postura de antropólogos que esquecem que o ser humano é composto por um corpo que também é biológico, e que, portanto, embora imbricado às representações sociais da saúde e da doença, mostra-se saudável ou, por vezes, objetivamente adoece.    

- Antropologia da saúde no Brasil, diversidade da produção e situação no contexto internacional: A autora aponta, em primeiro lugar, a opção pelo uso da terminologia antropologia da saúde em lugar de antropologia médica, pois essa nomenclatura tem sido mais utilizada no meio científico nacional e, no Brasil, reflete melhor a produção na área, que engloba abordagens de prevenção, promoção e qualidade de vida. Apresenta críticas e avanços alcançados pela antropologia da saúde latino-americana, iniciada por volta de 1920, para, em seguida, tratar do campo no contexto brasileiro. Minayo explica que, embora seja um campo novo, a antropologia da saúde no país tem atendido a uma demanda cada vez maior da sociedade em razão das novas questões que se vêm colocando para a saúde coletiva. Destaca que em nosso país os antropólogos demoraram a ingressar nas pesquisas e intervenções em saúde, o que aconteceu, timidamente, a partir de 1970 e 1980, sob a influência do Movimento Sanitário. A autora também fala da importância da Abrasco no desenvolvimento das pesquisas em antropologia da saúde ao lado de outras disciplinas e modalidades das ciências sociais; cita a abrangência dos estudos, que abarcam populações indígenas, rurais e urbanas; e aborda o perfil dos antropólogos com formação stricto sensu que atuam no campo, geralmente contratados ou concursados para atuar em programas de pós-graduação e de pesquisa em saúde coletiva. Desenvolve, ainda, uma classificação interna da produção antropológica brasileira (a nosso ver, desnecessária), dividida em quatro nichos compostos por: antropólogos stricto sensu e antropólogos da saúde; antropólogos que atuam no setor específico da saúde; antropólogos que atuam em departamentos pluridisciplinares e produzem abordagens interdisciplinares da área; e profissionais de outras áreas que se apropriam do instrumental teórico-metodológico da antropologia para trabalhar com seus próprios objetos.

Conclusões

Após retomar o percurso feito ao longo do texto, demonstrando contribuições e dificuldades que permeiam a relação da antropologia com o campo da saúde, a autora conclui que o mais importante é considerar o fato incontestável de que tanto a saúde quanto a doença envolvem efeitos que se dão no corpo e no imaginário dos indivíduos, e que, em ambos os casos, os efeitos e conseqüências são reais. Minayo defende a necessidade de os profissionais e gestores da saúde levarem em consideração os valores, atitudes e crenças das pessoas que são público-alvo de tratamentos ou ações de prevenção ou promoção da saúde. Segundo ela, compreender e valorizar a força da cultura na vivência humana (grande contribuição da antropologia para o campo da saúde) não fará das ciências da saúde menos científicas, como pensam alguns; ao contrário, permitirá que elas tenham maior domínio dos fenômenos sobre os quais se debruçam.    

quinta-feira, 31 de março de 2011

Será que, quando eu virar Dotôra, os dotôres vão me ouvir?



Me perguntei sobre isso na aula de hoje, enquanto ouvia um colega falar das disputas internas ao campo da saúde na atualidade. Disputas que aumentam com a chegada de novos atores – disciplinares, inclusive -, que trazem consigo outros olhares sobre o campo. Essas disputas pelo poder simbólico não cessam, e nós, comunicadores da/na saúde, estamos no olho desse furacão, lutando discursivamente, de posse de nosso capital cultural, com os tradicionais “profissionais da saúde”, especialmente eles, os médicos, eternos doutores. Somos nós, jornalistas ETs transitando pelo ambiente hospitalar, alguns desses novos atores, e causamos, com o nosso instrumental, o nosso foco, a nossa perspectiva, uma revisão de conceitos e, muitas vezes, um certo mal estar. Talvez o mal estar da interdisciplinaridade.

Plagiando o “vide bula” do mesmo espirituoso colega:
Se conselho serve de alguma coisa, prescrevo aos mais resistentes: UM ENGOV ANTES E OUTRO DEPOIS.

terça-feira, 29 de março de 2011

um dia em casa



no meio dessa loucura toda - entre trabalho e doutorado -, hoje fiquei em casa. não foi descanso, ao contrário, mas o motivo é o único justificável: meu filhote adoeceu. ainda não sei o que é, mas passei a noite em claro com ele, febre de quase 39 graus. tentei levá-lo a uma emergência - de hospital particular -, mas a espera mínima era de DUAS HORAS...
e por falar em saúde, um dia em casa com o joão, doente, e ele conseguiu "arrumar" o quarto dele para brincar! a minha saúde mental agradece!!!

domingo, 20 de março de 2011

Fichamento 1


Interdisciplinaridade e integração dos saberes
POMBO, Olga. Interdisciplinaridade e integração dos saberes. LIINC em Revista, v.1, n.1, 2005, p.3-15. Disponível em http://www.ibict.br/liinc. Acesso em 17.03.2011.

O artigo é fruto de uma conferência que a autora ministrou no Congresso Luso-Brasileiro sobre Epistemologia e Interdisciplinaridade na Pós-Graduação, realizado em Porto Alegre (Brasil) em junho de 2004. O tema do trabalho é compreender a questão da interdisciplinaridade tanto na investigação científica quanto no ensino das ciências na atualidade.
Pontos mais importantes apontados ao longo do texto:
1. Além de afirmar que não sabe o que é nem como se faz interdisciplinaridade, a autora arrisca dizer que ninguém sabe como se faz, pois a interdisciplinaridade não é qualquer coisa que se faça, mas algo que está a acontecer para além da nossa vontade. Ela defende que sua tentativa será fazer seu público entender um pouco do que se pensa sobre interdisciplinaridade e por que ninguém sabe como ela se faz e o que ela é exatamente;
2. Para começar, Pombo trabalha os conceitos de multi, pluri, inter e transdisciplinaridade, demonstrando suas semelhanças e seus distanciamentos. Segundo ela, esses conceitos seguem em um continuum de desenvolvimento, da ideia de convivência entre muitas disciplinas – multi ou pluri -, para a ideia de colocá-las em relação umas com as outras – inter -, até a ideia trazida pelo prefixo trans, de ir além das disciplinas, ou, nas palavras da autora, “uma ultrapassagem daquilo que é próprio da disciplina” (p.5). De qualquer modo, todos esses conceitos carregam em si, segundo ela, “uma tentativa de romper o carácter estanque das disciplinas” (p.5). A interdisciplinaridade estaria, portanto, em uma situação intermediária, entre a simples justaposição e a ultrapassagem/fusão entre elas;
3. O fundamental, para a autora, é compreender o que está por trás dessas várias palavras, que é a resistência da atividade científica ao processo de especialização que vem se fortalecendo a partir do século XIX, com o advento da ciência moderna, baseada nas metodologias propostas por Descartes e Galileu. A especialização que tem caracterizado o procedimento científico desde sempre é, segundo Pombo, essa metodologia que permite “ ‘esquartejar’ cada totalidade, cindir o todo em pequenas partes por intermédio de uma análise cada vez mais fina” (p.6), acreditando que, ao final do processo, poderá recompor o todo por meio da soma das partes;
4. Pombo explica que há, certamente, as vantagens relacionadas a essa concepção da ciência, demonstradas por todos os resultados notáveis trazidos para a vida do homem contemporâneo. Mas, no entendimento da autora, é necessário reconhecer os custos da especialização, que a autora elenca em seguida:
4.1. Custos relativos ao próprio especialista, que se converte em um ser que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, ao lado da separação e da incompreensão profunda entre duas formas da cultura científica: ciências da natureza e ciências do espírito, que deixam de comunicar entre si;
4.2. Custos do ponto de vista institucional, a saber, a competitividade entre comunidades de pares, que disputam entre si os apoios, financiamentos, bolsas, equipamentos etc. Uma das conseqüências dessa disputa é a patentificação de novas áreas de investigação, que, segundo Pombo, “ameaça destruir a nossa própria ideia de ciência” (p.8), pois dificulta ou mesmo inviabiliza as descobertas simultâneas e “o carácter público, universal e desinteressado da ciência” (p.9);
4.3. Para a autora, além dos custos culturais e institucionais da especialização, há ainda outros tipos de custos, como a questão da heurística: paradoxalmente, em paralelo ao processo de especialização vivido pela ciência, as descobertas científicas e o progresso da ciência estão cada vez mais atrelados à fecundação de umas disciplinas por outras, pela “transferência de conceitos, problemas e métodos – numa palavra, do cruzamento interdisciplinar” (p.9). O que vivemos hoje, nas palavras de Pombo, “é como se o próprio mundo resistisse ao seu retalhamento disciplinar” (p.9). Segundo Pombo, de acordo com alguns autores, como Durand (1991), a criação científica sempre esteve ligada à interdisciplinaridade;
5. Por tudo o que foi dito antes, a autora acredita que uma das chaves fundamentais para o entendimento da questão é considerar que o todo não é igual à soma das partes. Segundo ela, a especialização precisa ser complementada ou mesmo substituída por uma visão interdisciplinar, que pode ser capaz de abarcar as configurações e perspectivas múltiplas que a ciência necessita convocar para o conhecimento de seus objetos de estudo. Nessa nova perspectiva epistemológica, Pombo observa o surgimento de ciências de fronteira, interdisciplinas e mesmo interciências, combinações que visam resolver problemas precisos, que fogem à alçada das disciplinas tradicionais. Sim, pois a autora aborda também o surgimento não apenas de novas práticas de investigação interdisciplinar, mas de novos problemas, complexos, impossíveis de serem pensados sem lançar mão de uma enormidade de variáveis que nenhuma disciplina sozinha está apta a resolver. Disso, para ela, decorrem duas conseqüências: “o alargamento do conceito de ciência e a necessidade de reorganização das estruturas da aprendizagem das ciências, nomeadamente, a universidade;
5.1. Sobre o alargamento da ciência, a autora defende que, desde o início do século XX, a ciência entrou em um processo de perda da autonomia, passando a ser, cada vez mais, sobretudo a partir da 2ª Guerra Mundial, afetada por aspectos de natureza política e econômica; ao mesmo tempo, a ciência passou a contaminar e estar presente em todas as instâncias da vida humana, fazendo parte de nosso cotidiano;
5.2. Em razão desse apagamento de fronteiras entre ciência e política, economia, arte e vida, surge uma nova situação, a de um público mais informado, que passa a se interessar, a criticar e a exigir mais; o que aponta para uma remodelação da Universidade, um espaço de investigação mas também de formação;
6. O lugar da Universidade: polo de investigação e local de formação
6.1. Pombo salienta que, como polo de investigação, ela terá de acompanhar as transformações pelas quais passa a ciência contemporânea, adotando e apoiando as exigências interdisciplinares que atravessam a construção dos conhecimentos;
6.2. Como escola, local de formação, ela tem de estar apta a preparar para a interdisciplinaridade e não apenas apoiar, mas promover experiências que se debrucem sobre novos tipos de configurações disciplinares. Como afirma Pombo, “criar oportunidades sérias para pensar o que está a acontecer, tanto na esfera da produção, como na da transmissão do conhecimento” (p.13).
Conclusões: Por fim, a autora afirma que a interdisciplinaridade não se deixa pensar apenas em sua faceta cognitiva, pela sensibilidade à complexidade, mas exige uma atitude concreta de curiosidade, abertura e gosto pelo trabalho em comum. Nas palavras dela, “sem interesse real por aquilo que o outro tem para dizer não se faz interdisciplinaridade” (p.13). É preciso ter coragem para adentrar esse domínio que é de todos, esse “estar entre” que não pertence a ninguém em particular.

Registro: Assim era o projeto na Seleção 2010


(Para ficar mais fácil acompanhar o desenrolar - ou enovelar - da tese)

O que era doce acabou – Uma análise do desmame nos discursos oficiais de orientação ao aleitamento materno



Objetivos
O objetivo principal deste projeto é analisar as aparições e omissões acerca do tema desmame nos discursos dos materiais de orientação ao aleitamento materno produzidos pelo Ministério da Saúde na última década. Interessa-nos interpretar os sentidos do desmame ali privilegiados, buscando compreender as motivações relacionadas ao dito e ao não-dito sobre esse processo nos discursos que incentivam a mãe a iniciar o aleitamento, dar continuidade a ele, mas quase nunca a esclarecerem a respeito da complexidade de sentimentos e sentidos que permeia o encerramento da experiência da amamentação.
Este trabalho encontra seu lugar, precisamente, na necessidade de problematizar a abordagem do desmame – bem como da amamentação – no discurso oficial dos manuais, cadernos e álbuns seriados produzidos com o objetivo de orientar profissionais de saúde e população em geral à prática favorável do aleitamento materno. Tais materiais reproduzem um modelo desenvolvimentista da comunicação, para o qual a informação deve ser transmitida por meio de um processo “bipolar, linear, unidirecional e vertical” (ARAÚJO, 2004, p.166), e permanecem pautados, basicamente, em uma concepção biologicista do papel da mulher-mãe na sociedade.
O objetivo seguinte à análise do material existente sobre aleitamento materno, enfocando a questão do desmame, é propor uma reflexão sobre a abordagem do tema nos materiais educativos governamentais da educação para o amamentar, vislumbrando possíveis aproximações da comunicação em saúde com uma proposta mais ampla e integradora de diversos saberes – inclusive das próprias mulheres/mães e suas famílias - na educação para o amamentar. Tal reflexão será realizada com base nas discussões trazidas pelos referenciais teóricos selecionados e na interlocução desses discursos oficiais com outros discursos, como aqueles produzidos pelas organizações não governamentais que atuam no apoio à amamentação, como Amigas do Peito[1] e Matrice[2].
Relativizar esse saber médico historicamente naturalizado como verdade é um ponto fundamental para rediscutir o binômio amamentação-desmame sob outras óticas – inclusive a ótica do controle social sobre o corpo e a subjetividade da mulher – e trazer uma necessária polifonia ao campo da informação e da comunicação em saúde no processo da educação para o amamentar. Em razão disto, para que os manuais possam garantir uma orientação plena em relação à necessidade materna de informações – e também dos profissionais responsáveis por prestar a elas apoio durante o puerpério –, é preciso que o desmame esteja presente em sua integralidade, para além do seu aspecto nutricional.
Tal integralidade só pode se constituir por meio de uma “atitude de escuta” das diversas vozes envolvidas nesse processo comunicacional e por uma percepção mais ampla da mulher enquanto lactante. Esta percepção permitirá a construção de uma educação para o amamentar capaz de ouvir antes de aconselhar, de incluir as vozes do pai, de outros filhos e de demais familiares antes de prescrever, e, sobretudo, de compreender o contexto ao qual se dirige antes de atuar (CASTRO, 2006, 179).
Como aponta Hames (2006), o processo de amamentação encontra-se imbricado em uma rede de valores envolvendo mulheres, suas famílias, profissionais de saúde e sociedade como um todo, e essa configuração multidimensional exige “diferentes abordagens e intervenções para uma atuação efetiva na problemática que é o ser mãe, amamentar e desmamar o filho/a nos dias atuais” (p.22). Novas e diferentes abordagens não apenas no que se refere a uma assistência direta, protagonizada pelo profissional de saúde, mas também no âmbito da informação, da comunicação e das mediações em saúde.


[1] A ONG Amigas do Peito, com sede no Município do Rio de Janeiro, foi fundada em 1980 por um grupo de mulheres que percebeu “a importância de compartilhar dificuldades, expectativas e sucessos vividos com a amamentação”. Realiza eventos e reuniões e presta apoio a mães por meio de consultas por e-mail e do Disque-Amamentação. (Informações coletadas no sítio da organização. Disponível em http://www.amigasdopeito.org.br/. Acesso em 6 out. 2010).
[2] A associação Matrice – Ação de apoio à amamentação, sediada no Município de São Paulo, é composta por “Mães que ajudam outras mães a amamentar”. A partir de suas próprias histórias de amamentação, que mudaram suas vidas, o grupo de mulheres realiza reuniões e presta apoio a outras mães com o objetivo de “acolher a amamentação e tudo ligado a ela (aporte adequado de nutrientes, dependência física e emocional, peso social, familiar e no ambiente de trabalho) e transformar isso tudo em experiências pessoais positivas de crescimento”. (Informações coletadas no sítio da organização. Disponível em http://matrice.wordpress.com/. Acesso em 6 out. 2010).

interdisciplinas, entremundos, este mundo

"Estamos perante transformações epistemológicas muito profundas. É como se o próprio mundo resistisse ao seu retalhamento disciplinar."

Olga Pombo

quinta-feira, 17 de março de 2011

pra começar, quem vai colar?

exigência acadêmica às vezes pode acabar em prosa? ou pior (!): em poesia?
é pra fazer, eu faço, sempre fui aluna obediente, de sentar entre as primeiras da fila...
mas, e depois, se quebrar?